quarta-feira, 2 de março de 2011

Território Livre de Princesa


Coronel José Pereira
Apesar do brasileiro não ligar muito para o seu passado, vou contar aqui a curiosa história do Território Livre de Princesa, pois acho que ela mostra o poder dos coronéis, na República Velha (1889-1930). É sabido que a hierarquia de poder da época era: Presidente - Governadores - Coronéis. Prefeitos eram subordinados, quando não era o próprio coronel.

Paraíba, 1930. Na cidade de Princesa Isabel, o coronel José Pereira, que chegou a ser amigo de Lampião, mandava e desmandava. O presidente do estado da Paraíba era João Pessoa. Ao apresentar a chapa para deputados federais em Princesa, João Pessoa deixou de fora o coronel Zé Pereira, que era deputado estadual, seus amigos e correligionários, inclusive o ex-governador João Suassuana, pai do hoje famoso escritor Ariano Suassuna. Tal ofensa, fez o coronel José Pereira romper com João Pessoa, que era candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas e, declarou apoio aos seus adversários no plano nacional. Pessoa então destituiu o prefeito, o vice-prefeito e o promotor de Princesa que eram ligados ao coronel e mandou tropas da polícia militar para Teixeira, cidade vizinha, para acabar com a rebelião. 

José Pereira e seu exército
O coronel Pereira, mandou a Teixeira, 120 bem armados para retomar a cidade que fazia parte do seu curral eleitoral. Esta batalha aconteceu em fevereiro de 1930 e a vitória foi do coronel. Em maio, Pessoa faz nova investida enviando 220 soldados e jagunços para atacar Princesa. Os homens do coronel armam uma emboscada onde morrem mais de 100 pessoas.


Tanque de guerra do coronel construído em Campina Grande
Animado com as vitórias, o coronel proclama o Território Livre de Princesa, desligado da Paraíba, mas subordinado ao governo federal, com bandeira, hino, exército e leis próprias. Como dominar Princesa estava muito difícil, João Pessoa manda um avião lançar panfletos sobre a cidade, ameaçando um bombardeio aéreo, caso a população, fechada com o coronel, não depusesse as armas. A cidade ainda não tinha visto um avião, apesar disso, balas não faltaram tentando derrubá-lo. Um dos jagunços chegou a dizer: "derrubar não derrubamos, mas caiu pena do rabo pra todo lado". Eram os panfletos amarrados a pedras. Além de não se intimidar o coronel aumenta a sua tropa, para 1.200 homens e começa a ampliar as fronteiras de Princesa.  

Nesse meio tempo, João Dantas, advogado, rico, mulherengo e amigo do coronel, vinha sofrendo humilhações por parte de Pessoa, culminando com a apreensão das cartas de suas inúmeras namoradas, que foram coladas em muitas paredes da Paraíba. Era uma rusga pessoal entre ele e Pessoa, a quem jurou vingança publicamente. Cumpriu a sua jura em 26.06.1930, numa confeitaria de Recife. Este episódio mudaria completamente o rumo do Território Livre de Princesa e pasmem, da história do Brasil.

Morto João Pessoa, Pereira que não tinha nada com isso, declarou Princesa novamente município paraibano. Entretanto, A Aliança Liberal de Getúlio que havia perdido a eleição, usou o episódio para acusar o Washington Luís e seu candidato eleito, Júlio Prestes, de mandantes. O corpo de João Pessoa foi levado ao Rio numa viagem de 10 dias e mostrado nas cidades do caminho como um crime político. Funcionou, houve comoção nacional.

Com isso, Getúlio, encarnando o papel de vítima, sai do Rio Grande do Sul com enorme tropa, amarra seu cavalo na avenida Central, na capital federal, e assume o poder, já recuperado pelos militares dias antes. Sem apoio do governo federal e indiretamente implicado no assassinato de João Pessoa, Pereira e seus amigos mais chegados tiveram que fugir. 


Assim termina a história do território Livre de Princesa, deixando muitas outras estórias paralelas, como a que Luiz Gonzaga conta na música Xanduzinha, que você pode ver no vídeo abaixo. Marcolino, amissíssimo de Lapião, era irmão da esposa de José Pereira e protaginizou uma bela história de amor sertaneja com Xanduzinha. José Pereira também foi cantado na música "Paraíba", de Luiz Gonzaga.



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